quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Bestialidades


Não se sentia bem pensando aquelas bestialidades, não era mais o mesmo. Nem seus ternos eram mais os mesmos. Tudo mudara: as cores das gravatas, os quadros nas paredes (as paredes), os tapetes na entrada e a entrada em si.

Contara-me um dia desses que nem mesmo o ar era capaz de entrar e encher-lhe os pulmões de vontade; que parecia ar boliviano, rarefeito; que não mais lhe preenchia euforicamente como fizera antigamente, e nem mais lhe trazia nostalgias, divagando em indesejados devaneios. De certo que por motivos e razões análogas às de outrora, mas com toques e pitadas de maturidade, de descontentamento e qualquer coisa que dê para disfarçar ao longo do dia apenas tornando-se ébrio.

Dissera-lhe que parasse de procurar culpa, culpados, dolo e dor. Tolice viver a apurar responsabilidades. Ainda que um dia já se orgulhara em ser tolo deveria ao menos não delirar-se com estapafúrdias e absurdas desculpas. Ora, elas viriam aos milhares, inundando-o de ausência de pensamento lógico acerca do plausível, do óbvio.

Não seriam culpados ou circunstâncias, ausências ou fugas, intenções ou apatia que lhe faria observar e compreender, se é que possível seja, o que lhe sucedera naqueles dias de naufrágio interior. Uma tempestade semi-tropical de inverdades, de desajustados sentimentos e de sentidos pouco aguçados.

Não havia nostalgia, não havia desejo de reviver a mal contada história que ocorrera. Nenhuma saudade, nenhuma dessas meiguices românticas, enervadoras. Não afirmava, tampouco desmentia, que não mais entregar-se-ia tolamente, loucamente. Generalizava tudo em um mesmo patamar de descontentamento, de desilusão, mesmo informado que não há nada mais besta que generalizações precipitadas.

Não se julgava precipitado como antes. Via-se sóbrio, não mais entorpecido por sentimentalidades inquietantes. Com esforço enorme arrancara de cenas confusas alguns fragmentos, alguns pedaços de contrariedade; arrancara montanhas de infelicidade.



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Manchas de Sorvete e Bigode de Suco de Uva.


Quando ele chega trás consigo a alegria, o sorriso farto, oferecido e contagiante; trás consigo carinhos ingênuos, abraços apertados e beijos por todo meu rosto; trás comentários desconcertantes e perguntas embaraçantes;

Quando ele chega me leva a um outro mundo, esquenta meu coração e acalma minha alma. Somos dois solteirões eu pego carona na sua beleza, no seu carisma e na sua cara lavada. Elogios de tabela: ótimo.

Confere seu quarto, averiguando se todos os brinquedos estão por lá. Se todos os carrinhos estão estacionados no lugar que os deixou. Me explica todas as vezes que não pode subir na janela, porque é alto e perigoso e pode cair e machucar. Confere se o porta-retratos ainda está no móvel da sala e acha graça da sua foto com um embrulho de presente na cabeça (realmente é ótima essa foto).

Quando ele vai embora viro um pai sem manchas de sorvete no meu jeans; quando ele vai embora leva consigo o bigode de suco de uva; leva o sorriso fácil; a alegria.

Quando ele vai embora eu me lembro que os próximos dias serão de saudade. É fogo ser pai de fins de semana.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Texto?

Pois é, um dia poderemos ler uns textos aqui nesse blog, basta um pouco de paciência pra eu confeccioná-los.
Abraços.